Análise da figura e regime jurídico do crime de burla.
Análise da figura e regime jurídico do crime de burla.
Conceito e requisitos
do crime de burla
De acordo com o
artigo 287 da Lei n.o 24/2019, de 24 de Dezembro (Código penal),
compete o tipo legal de crime de burla todo aquele que “intenção de obter para si ou
para terceiro enriquecimento ilícito por meio de erro ou engano sobre factos ou
astuciosamente provocou, determinar outrem a pratica de actos que lhes causem,
ou causam a outra pessoa, prejuízo patrimonial”. O tipo legal de
crime de burla é punido com
uma pena de prisão de 1-2 anos de prisão, substituível/convertida em multa em
caso de preenchimento dos requisitos de aplicação das penas[1]
substitutivas a pena de prisão, nos termos do artigo 66, artigo 68, artigo 69,
artigo 71, artigo 287 todos do Código Penal.
Resulta da
interpretação do artigo a existência dos seguintes elementos constitutivos do
crime de burla:
a) Intenção
de obter para si ou para terceiro um enriquecimento ilegítimo;
b) Uso
de erro ou engano sobre factos, astuciosamente provocado;
c) Para
determinar outrem à prática de actos que lhe causem, ou a terceiro, prejuízo
patrimonial.
Na concepção
doutrinária de LATAS, DUARTE, PATTO
(2007), o elemento “intenção de obter um enriquecimento ilegítimo”, resulta
nítida a conclusão de que o agente do crime de burla tem de visar obter, para
si próprio ou para terceiro, um enriquecimento não devido, referindo SIMAS SANTOS E LEAL-HENRIQUES, (2005)
citados por LATAS, DUARTE, PATTO
(2007), que “esse enriquecimento ilegítimo pode ocorrer por diversas formas:
mediante um aumento patrimonial dos bens de terceiro ou do agente (v.g. o
agente, usando o conto do vigário, obtém a entrega de dinheiro por parte do
burlado); mediante uma diminuição do passivo patrimonial do agente ou de
terceiro (o agente leva outrem a satisfazer uma dívida sua, persuadindo-o que
lhe pertencia satisfazê-la); mediante a poupança de despesas, que são
satisfeitas pelo lesado (o agente, devedor de alimentos a outrem, leva o
sujeito passivo a satisfazer esses alimentos no convencimento de que é ele o
titular dessa obrigação alimentar)”. Essencial é, sempre, que o enriquecimento obtido
não corresponda, objectiva ou subjectivamente, a qualquer direito.
Na sequência, LATAS, DUARTE, PATTO (2007), ao
elemento “uso de erro ou de engano, astuciosamente provocado”, importa realçar
que aqui tanto cabe a mentira que provoca no lesado uma falsa representação da
realidade, sendo essa mentira intencionalmente utilizada pelo agente do crime
como forma de provocar essa “ilusão” no lesado, como também caberão as
situações em que o agente dolosamente se silencia, aproveitando uma situação de
erro (da qual, ele agente, bem se apercebe) preexistente por parte do lesado (ou
seja, nestes casos o agente, não obstante se aperceber do erro já existente,
causa a sua persistência, prolonga-o, assim obstando a que a vítima saia
daquele engano)[2].
Finalmente, o
elemento “prática de actos que causem um prejuízo patrimonial”, importa referir
que deve existir uma perfeita e sucessiva relação de causa-efeito entre a
conduta enganosa ou astuciosa e a prática de actos que causem, ao enganado ou a
um terceiro, um efectivo prejuízo patrimonial, e se normalmente existe uma
relação de correspondência entre o valor do aumento patrimonial obtido pelo
agente do crime (para si ou para terceiro) e o valor do prejuízo causado (à
vítima ou a terceiro) bem pode acontecer, também, que tais valores não sejam
equivalentes, nomeadamente sendo superior o prejuízo causado, (LATAS, DUARTE, PATTO, 2007).
Classificação do crime de burla
Segundo o artigo
287.o, artigo 288.o, artigo 289.o, artigo 290.o
todos do Código penal, o tipo legal de crime de burla é classificado nos seguintes termos:
a)
Burla simples;
b)
Burla agravada;
c)
Burla informática e nas comunicações;
d)
Burla relativa a emprego ou trabalho.
Burla simples e agravada
A burla
classifica-se como simples quando exista a simples, intenção de obter para si ou
para terceiro enriquecimento ilícito por meio de erro ou engano sobre factos ou
astuciosamente provocou, determinar outrem a prática de actos que lhes causem,
ou causam a outra pessoa, prejuízo patrimonial, conforme o conceito
do tipo legal de crime. E atribui-se a classificação de agravada quando acompanhada de outros elementos
característicos, nomeadamente:
a)
Utilizar o agente artifício fraudulento
fundamental para a obtenção de um financiamento ou crédito destinado ao uso
pessoal ou ao de uma empresa ou estabelecimento;
b)
Utilizar o agente meio astucioso ou enganoso, e,
desta forma, induzir, enganar ou levar outrem a participar em investimentos
financeiros falsos, com o propósito de obter para si ou para terceiro um
enriquecimento ilegítimo, com prejuízo patrimonial para outra pessoa;
c)
Utilizar o agente meios fraudulentos essenciais
para a obtenção de fundos, subsídios ou pensões;
d)
Causar o agente a si ou a outra pessoa,
fraudulentamente, lesão da integridade física ou dano ou agravar as suas
consequências provocadas por acidente cujo risco esteja coberto a fim de
receber, ou fazer com que outra pessoa receba, seguro;
e)
Praticar o agente venda ou por qualquer forma
alienar, hipotecar ou penhorar a terra.
A Semelhança da
burla simples a burla agravada é
punida com pena não privativa de liberdade, mas na falta de preenchimento de
requisitos é aplicada a pena
de prisão de 1-3 anos, nos termos do artigo 66, artigo 68, artigo 288 todos do
Código penal.
Burla informática e nas comunicações
Nos termos do
disposto no número 1 do artigo 289 do Código penal, “Quem, com intenção de
obter para si ou para terceiro enriquecimento ilegítimo, causar a outra pessoa
prejuízo patrimonial, interferindo no resultado de tratamento de dados ou
mediante estruturação incorrecta de programa informático, utilização incorrecta
ou incompleta de dados, utilização de dados sem autorização ou intervenção por
qualquer outro modo não autorizada no processamento, é punido com pena de
prisão até 3 anos ou com pena de multa”.
De harmonia com o
n.º 2 do normativo em referência, “a mesma pena é aplicável a quem, com
intenção de obter para si ou para terceiro um benefício ilegítimo, causar a
outrem prejuízo patrimonial, usando programas, dispositivos electrónicos ou
outros meios que, separadamente ou em conjunto, se destinem a diminuir, alterar
ou impedir, total ou parcialmente, o normal funcionamento ou exploração de
serviços de telecomunicações”.
Analisando o
preceito ora em apreço, verifica-se que o mesmo contempla dois delitos
distintos: o crime de burla informática
(cfr. n.º 1) e o crime de burla nas
comunicações (cfr. n.º 2, aditado ao preceito original pela Lei n.º
24/2019, de 24 de Dezembro). Em relação ao crime de burla informática impõe-se
afirmar que apesar de o n.º 1 conter um elenco de condutas aparentemente
“tabelador” das actuações que poderiam ser subsumidas a este tipo de crime,
verifica-se que tal enunciação é meramente exemplificativa em resultado da
referência à “intervenção por qualquer outro modo não autorizada no
processamento”, constante da parte final daquela enumeração.
Paralelamente, e ao
contrário do tipo base de burla, nestes casos o agente não provoca nenhum
engano que leva o sujeito passivo ou a vítima à prática de actos de diminuição
patrimonial, sendo que a burla informática se caracteriza por consistir num
“atentado directo ao património, i.e., num processo executivo que não
contempla, de permeio, a intervenção de qualquer outra pessoa e cuja única
peculiaridade reside no facto de a ofensa ao bem jurídico se observar através
da utilização de meios informáticos”[3].
Por sua vez, e já no
que tange ao crime de burla nas telecomunicações verifica-se que o mesmo
prescinde também de qualquer intervenção do sujeito passivo ou do lesado,
resultante de erro provocado pelo agente, assim praticando actos que lhes
causem (ao sujeito passivo ou ao lesado) um prejuízo patrimonial. Também nestes
casos, na verdade, é a conduta do agente que directa e isoladamente (através de
uma das formas enunciadas no tipo ou através de qualquer outro meio, atenta a
expressão “outros meios que, separadamente ou em conjunto… se destinem a …”)
releva, na medida em que ele é o único “dominus” do processo executivo, sendo a
vítima, as mais das vezes, confrontada com o resultado da conduta do agente
apenas no momento em que este se produz.
Burla relativa a trabalho ou emprego
Conforme preconiza o
artigo 290 do Código penal, “quem, com intenção de obter para si ou para
terceiro enriquecimento ilegítimo, causar a outra pessoa prejuízo patrimonial,
através de aliciamento ou promessa de trabalho ou emprego no país ou no
estrangeiro, é punido com pena de prisão até 1 ano e multa correspondente.”, de
realçar que, a semelhança dos demais crimes de burla, a presente classificação
também é passível de
aplicação de pena não privativa de liberdade, nos termos do artigo 66, artigo
68 ambos do Código penal.
Mas diferente dos
demais tipos legais de crime, o agente da infracção criminal para a satisfação
do interesse último do crime, enriquecimento sem causa, uso como ferramenta de
enriquecimento ilícito a promessa de emprego no país ou estrangeiro, situação quotidianamente no território
nacional, atraído como vítimas um grupo maioritariamente formado por jovens
recém-formados, em busca pelo primeiro emprego. Situação igualmente motivada
pela frequente escassez de emprego.
[1]Pressupostos de aplicação: réu
primário, proceder a restituição dos bens que se tenha apropriado, se for o
caso ou tiver reparado totalmente os danos e prejuízos causados a vítima ou a
comunidade com a prática do crime; no caso de reparação parcial, assumir a
continuação da reparação ainda em falta no prazo e condições judicialmente
fixados. Se sujeitar as medidas, aos deveres e as regras de conduta previstas,
sobre as condições da suspensão provisória do processo, e que o tribunal vier a
fixar na decisão. – Artigo 68 n.o 1 do Código penal.
[2]Acórdão
da Relação do Porto, de 5 de Março de 1986, in BMJ nº 355, pág. 433, no qual se
lê que “para que se verifique o crime de burla...não é necessário que o erro ou
engano sejam provocados por um comportamento activo do agente, por palavras ou
actos, podendo também ser provocados por um comportamento passivo”.
[3]
Cfr. A. M. Almeida Costa, Comentário Conimbricense do Código Penal, Parte
Especial, Tomo II,
Coimbra Direito Editora, 1999, pag.330.
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